CAVALOS
Nas savanas do extremo norte do Brasil, um cavalo diferente de qualquer outro galopa há mais de dois séculos. Os cavalos lavradeiros habitam as regiões do Lavrado, um ecossistema característico do nordeste de Roraima, abrangendo municípios como Amajari, Uiramutã, Normandia e Pacaraima. Formados pela seleção natural mais severa (seca prolongada, pastagem pobre e isolamento geográfico), esses animais carregam uma herança genética que o Brasil corre o risco de perder para sempre.
Embrapa monitora menos de 200 exemplares puros; especialistas alertam que sem políticas públicas urgentes o Brasil pode perder um tesouro genético insubstituível
Em 1789, cavalos vindos da Europa chegaram à região durante o início do povoamento de Roraima, quando o comandante Lobo D’Almada introduziu a pecuária na área. Alguns desses animais fugiram, e com o tempo foram se reproduzindo livremente, formando manadas de 200 a 300 animais. Desse processo nasceu o Lavradeiro, não por escolha humana, mas pela força da natureza.
Os animais descendem de raças como garrano e andaluz. Há ainda uma participação considerável do puro-sangue inglês na formação do ecótipo, já que Roraima faz divisa com a Guiana, antiga colônia inglesa. Ao longo de gerações, apenas os mais resistentes sobreviveram. O resultado é um animal compacto, veloz e extraordinariamente adaptado. Os lavradeiros mantêm velocidade média de 60 quilômetros por hora durante 30 minutos. Um desempenho notável para um animal que se alimenta basicamente de capim de baixo valor nutritivo.
Um patrimônio à beira do desaparecimento
A população de cavalos lavradeiros está estimada em apenas 200 exemplares puros, número que vem diminuindo por causa das pressões da expansão humana. Queimadas, desmatamento e cruzamentos com outras raças comprometem a sobrevivência desse patrimônio genético.
Atualmente, apenas 15% do universo de cavalos que se multiplicam livremente pelo lavrado atendem ao padrão do tipo lavradeiro. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) considera em “estado vulnerável” qualquer raça equina com menos de cinco mil fêmeas em reprodução. No caso dos lavradeiros, a estimativa é de que 60% dos 3.150 cavalos existentes sejam éguas em reprodução, o equivalente a apenas 1.890 fêmeas.
O cavalo Lavradeiro não tem reconhecimento oficial como raça, mas sim como ecótipo, um tipo animal daquele ecossistema específico. Por não ter uma associação que determine suas características, tampouco registro oficial, o animal acaba tendo pouco valor comercial, o que reduz a atenção destinada à sua preservação, explica o veterinário e pesquisador da Embrapa Ramayana Menezes.
A Embrapa na linha de frente
Desde 1983, a Embrapa estuda os cavalos lavradeiros. Além disso, hoje, a Embrapa Roraima mantém um Núcleo de Conservação do cavalo Lavradeiro na Fazenda Resolução, no município de Amajari, a cerca de 170 km da capital Boa Vista, com 43 animais mantidos junto a rebanhos de criadores particulares. Seis garanhões foram transferidos para o campo experimental Fazenda Água Boa para adaptação e manejo.
O trabalho inclui caracterização genética, fenotípica e histórica dos animais, além de sensibilização de produtores e comunidades sobre o valor cultural e biológico do ecótipo. Com a conservação em bancos genéticos, por meio de amostras de sêmen e DNA, aliada à manutenção dos animais em núcleos de criação, a Embrapa busca garantir que esse tesouro genético continue sendo símbolo das futuras gerações de Roraima e do Brasil.
Mas pesquisadores alertam que o esforço institucional ainda não é suficiente. Para o pesquisador Ramayana Menezes, é imprescindível a criação de uma associação de criadores do Lavradeiro para reduzir o risco de extinção desse importante patrimônio genético e cultural, com a implementação de formas concretas de conservação.
Atualmente, as comunidades indígenas e pequenos produtores rurais são os principais responsáveis pela conservação e continuidade do ecótipo em Roraima. Proteger o Lavradeiro, portanto, vai além da preservação animal. É resgatar dois séculos de história brasileira gravados no DNA de um cavalo que aprendeu a sobreviver sozinho.
FONTE: AGRO EM CAMPO